MATRIARCADO A ERA DA PROMISCUIDADE SEXUAL

Nota Editorial:
Este artigo foi originalmente publicado em 2017. Em 2026, as informações foram revisadas e atualizadas para refletir novos estudos e reflexões sobre o tema.
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O Condutor do Tempo · HistóriaTempo de leitura: 7 min

O Mito do Matriarcado e as Sociedades Matrilineares: o Que o DNA Antigo Revela

Durante mais de um século, muita gente acreditou que a humanidade começou sob o governo das mulheres. A genética e a arqueologia atuais mostram algo diferente — e mais interessante.

Em 1861, o jurista suíço Johann Jakob Bachofen publicou Das Mutterrecht ("O Direito Materno"). Segundo ele, a humanidade teria passado por três estágios, e o primeiro seria um período de domínio feminino, em que as mulheres controlavam a vida política e jurídica dos clãs.

A ideia ganhou força. Em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884), Friedrich Engels também defendeu que as sociedades primitivas se organizavam pela linha materna, posteriormente substituída pelo patriarcado. A narrativa de uma "era matriarcal" seguida de uma "queda" se popularizou e persiste até hoje.

O problema com a tese de Bachofen

Bachofen partia da suposição de que as comunidades primitivas viviam em "promiscuidade sexual". Como ninguém saberia quem era o pai de cada criança, a mãe seria o único vínculo certo, e daí viria o poder feminino. Essa premissa não se sustenta: os estudos etnográficos de caçadores-coletores mostram sociedades com regras de parentesco, tabus e sistemas de casamento bem estruturados. O argumento nasceu mais de preconceitos do século XIX do que de evidências.

⚠️ Contexto: Bachofen escreveu quando a antropologia ainda não existia como ciência. Seu livro foi influente, mas é uma obra de especulação, não de dados.

Três conceitos que não são a mesma coisa
  • Matriarcado: sistema político em que as mulheres detêm o poder formal de governo. Não há evidência sólida de que tenha existido em larga escala na pré-história.
  • Matrilinearidade: sistema de parentesco em que a descendência e a herança passam pela linha materna.
  • Matrilocalidade: sistema de residência em que o casal vive com a família ou na comunidade da mulher.

Hoje há evidências genéticas de sociedades com organização centrada nas mulheres. Isso, porém, não equivale a governo feminino. Mesmo entre povos matrilineares atuais, como os Mosuo da China ou os Minangkabau da Indonésia, parentesco e herança pela linha materna convivem com lideranças políticas variadas.

As evidências genéticas
Çatalhöyük (Turquia): uma sociedade centrada nas mulheres

Çatalhöyük, na Anatólia, foi ocupada por cerca de mil anos (aproximadamente de 7150 a 5950 a.C.). É famosa pelas casas sem ruas, acessadas por aberturas no teto, e por suas figuras femininas. Em 2025, a revista Science publicou a análise do DNA de 131 pessoas sepultadas sob 35 casas. Os principais resultados:

  • Pessoas enterradas na mesma casa eram mais aparentadas pela linha materna do que pela paterna.
  • Estima-se que, entre 70% e 100% das vezes, as filhas permaneciam ligadas à casa de origem, enquanto os filhos adultos tendiam a se mudar.
  • Meninas e bebês do sexo feminino receberam cerca de cinco vezes mais objetos funerários que os meninos. Nos sepultamentos de adultos, não houve diferença marcante.
  • Práticas centradas nas mulheres continuaram ao longo de toda a ocupação, embora a composição das famílias tenha mudado com o tempo.

Um detalhe importante: os próprios pesquisadores preferem o termo "centrada nas mulheres" a "matrilinear", porque matrilinearidade diz respeito a como as pessoas definem seus parentes, algo que o DNA não mostra diretamente. O padrão observado é compatível com matrilocalidade. Esse quadro contrasta com o do Neolítico europeu, em que predominava a patrilocalidade, o que mostra que não havia um modelo único.

Fujia (China): dois clãs maternos

Em 2025, a Nature publicou o estudo do sítio de Fujia, na província de Shandong, datado de cerca de 2750 a 2500 a.C. (cultura Dawenkou). A análise de DNA de 60 indivíduos, combinada com isótopos e contexto arqueológico, indicou duas necrópoles organizadas por clãs maternos, mantidas por pelo menos dez gerações (mais de 250 anos). Os dois clãs trocavam cônjuges entre si. Segundo os autores, trata-se de uma sociedade relativamente igualitária, sem grande acúmulo de riqueza. É um dos raros casos de matrilinearidade confirmados por genética.

🧬 O que isso significa? As sociedades antigas não eram fixamente matriarcais nem patriarcais. A organização variou conforme a região, a época e as condições locais. A história não é uma linha reta do matriarcado ao patriarcado.

E as estatuetas femininas?

As "Vênus" do Paleolítico Superior e as figuras femininas de sítios neolíticos como Çatalhöyük foram, por muito tempo, lidas como prova de um culto à Deusa-Mãe e de uma sociedade matriarcal. A arqueóloga Marija Gimbutas popularizou essa leitura a partir dos anos 1970.

A arqueologia posterior é bem mais cautelosa, e com razão: a imagem de mulheres não prova que elas mandassem. Figuras femininas podem ter funções rituais, simbólicas ou cosmológicas sem relação direta com a hierarquia entre homens e mulheres. Mesmo em Çatalhöyük, onde há de fato sinais de práticas centradas nas mulheres, os dados atuais não permitem concluir que elas exerciam domínio político.

A Revolução Neolítica foi a "queda" das mulheres?

A ideia de que a agricultura e o sedentarismo subjugaram as mulheres é muito difundida, mas a pesquisa recente não aponta um efeito único. Dependendo da subsistência, da organização dos assentamentos e dos valores culturais, os resultados foram de relativa igualdade a hierarquias pronunciadas. Em Çatalhöyük, por exemplo, práticas centradas nas mulheres persistiram por mil anos mesmo com o aumento da complexidade social. O que parece ter havido foram negociações locais do poder entre os gêneros, e não uma derrota universal.

Conclusão
  • Sociedades com organização centrada nas mulheres existiram, com evidência genética em Çatalhöyük e Fujia.
  • Não há evidência de matriarcado como governo formal das mulheres.
  • O poder feminino era real, mas contextual: ligado a parentesco, residência, ritual e economia.
  • O Neolítico foi ambíguo para as mulheres: em alguns lugares perderam poder, em outros o mantiveram.
  • A "era matriarcal dourada" é uma construção do século XIX, não um fato estabelecido.

💡 Por que isso importa? Se o passado não foi nem um paraíso matriarcal nem um patriarcado eterno, as relações de gênero são construções históricas, e o que é construído pode ser transformado.


Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre matriarcado e matrilinearidade?

Matriarcado é um sistema político em que as mulheres detêm o poder formal de governo (não há evidências sólidas de que tenha existido em larga escala). Matrilinearidade é um sistema de parentesco em que a descendência e a herança passam pela linha materna, o que é comprovado geneticamente em algumas sociedades antigas, sem necessariamente implicar domínio político.

O DNA antigo provou que existiu um matriarcado universal na pré-história?

Não. O DNA antigo revelou sociedades com organização centrada nas mulheres (matrilineares ou matrilocais), como em Çatalhöyük e Fujia, mas não um "matriarcado" como governo formal. A organização social variava conforme a região, a época e as condições locais.

As estatuetas femininas do Paleolítico provam que as mulheres governavam?

Não necessariamente. A arqueologia moderna é cautelosa: figuras femininas podem ter funções rituais, simbólicas ou cosmológicas sem que isso signifique uma hierarquia de poder político feminino sobre os homens. Símbolo não é sinônimo de estrutura de poder.

Qual a principal lição da pré-história para o empreendedorismo moderno?

A principal lição é que não existe um "modelo universal" de sucesso. Assim como as sociedades antigas se adaptavam ao seu contexto local, um negócio deve adaptar sua estrutura e cultura à sua realidade, tomando decisões baseadas em dados e contexto, e não apenas em narrativas ou modismos.


Lições do artigo para o empreendedorismo

Vale uma ressalva: comparar uma aldeia neolítica a uma empresa de hoje é uma analogia, não uma prova. Dito isso, o artigo ensina algumas coisas úteis a quem empreende.

  • 1. Narrativa não é evidência. O mito do matriarcado se espalhou porque era uma boa história, e não porque tinha dados. No empreendedorismo acontece o mesmo com "toda startup precisa escalar rápido" ou "o cliente quer X". Antes de apostar, vale testar a hipótese com números, como a ciência fez ao trocar a especulação do século XIX pelo DNA antigo.
  • 2. Não existe modelo universal. Cada sociedade se organizou de um jeito conforme a região, a época e as condições locais. Copiar o modelo de outra empresa, de outro país ou de outro setor sem adaptá-lo costuma dar errado. O que funciona é entender o seu contexto.
  • 3. Símbolo não é poder. As estatuetas femininas não provavam que as mulheres mandavam. Hoje, uma marca pode ter uma comunicação inclusiva e uma diretoria sem diversidade. Vale olhar quem realmente decide, e não só quem aparece na vitrine.
  • 4. A estrutura molda o resultado. Em Çatalhöyük e Fujia, as regras de parentesco e residência organizavam a vida inteira. Nas empresas, a sociedade entre sócios, a política de sucessão de cargos e os critérios de decisão definem a cultura mais do que os valores escritos na parede.
  • 5. Mudança não é queda nem paraíso. A transição para a agricultura não foi só perda nem só ganho para as mulheres, e dependeu do lugar. Uma transformação no seu negócio (digitalização, mudança de modelo, entrada de investidor) também costuma favorecer uns e prejudicar outros, e gerenciar isso exige olhar caso a caso.
  • 6. Credibilidade é um ativo. Citar fontes e admitir o que ainda não se sabe constrói confiança, e confiança é difícil de copiar.

Em resumo, a lição central é decidir com base em dados e contexto, e não em histórias que soam bem.

Referências
  1. Bachofen, J. J. (1861). Das Mutterrecht. Stuttgart: Krais & Hoffmann.
  2. Engels, F. (1884). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.
  3. Yüncü, E. et al. (2025). Female lineages and changing kinship patterns in Neolithic Çatalhöyük. Science, 388(6754), eadr2915. DOI: 10.1126/science.adr2915
  4. Wang, J. et al. (2025). Ancient DNA reveals a two-clanned matrilineal community in Neolithic China. Nature, 643, 1304–1311. DOI: 10.1038/s41586-025-09103-x
  5. Eller, C. (2000). The Myth of Matriarchal Prehistory. Boston: Beacon Press.
  6. Meskell, L. (1995). Goddesses, Gimbutas and "New Age" archaeology. Antiquity, 69(262), 74–86.
  7. Hodder, I. (2006). Çatalhöyük: The Leopard's Tale. London: Thames & Hudson.
  8. Exploring matrilocality in history: insights from ancient DNA (2026). Evolutionary Human Sciences, Cambridge University Press.

Aviso: Este artigo tem caráter informativo e educacional. As interpretações aqui apresentadas refletem o conhecimento científico atual e podem ser revistas conforme novas pesquisas. Para uso acadêmico, consulte as fontes primárias.

Por Josiane de Abreu · Publicado em 03 de outubro de 2026 · O Condutor do Tempo

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